terça-feira, 12 de outubro de 2010
Há uma altura em que deixamos de ser poetas. Não por falta de inspiração ou preguiça, mas por haver palavras a mais a serem escritas e pouco espaço livre no universo no meio de tanto desespero por algo profundo. Todos passamos por lá, uns mais tarde que outros: a altura de dar sentido ao percurso. E se o percurso não tem sentido, inventa-se! Há uma altura em que todos querem ser poetas, há uma altura em que temos que deixar o barulho serenar.
Tiago Bettencourt dixit. Não o poderia dizer melhor.
terça-feira, 3 de novembro de 2009
2 anos é muito tempo.
Há mais de dois anos que não escrevia aqui. Apesar de ser uma (auto)visita constante ao douro enraivecido, sabia que havia assuntos, temas, conversas que deveria ir aqui escrevendo para quem quisesse ler. Mas ou o tempo, ou a indisponibilidade, ou o cansaço, ou a chatice, ou o meu auto-comodismo fizeram com que este blog permanecesse parado.
Retomo hoje a minha escrita, infelizmente.
Foi-me apresentado, há quase 6 anos, um sujeito. De poucas falas, bastante cordial, mas personificava demasiado o "formal". "Obrigado" a vir ao meu casamento, o tal sujeito lá apareceu em Vila Real. Era uma pessoa "importante", amigo da família, homem respeitável na sua terra (e a da minha mulher). Por mim tudo bem.
Conversa de circunstância: "Obrigado por ter vindo", "Então e o que faz? Hmm... Muito bem.", "As melhores felicidades", etc. e tal. Ainda combinamos uma reunião lá na terra dele (e a da minha mulher), mas ele depois "esquivou-se".
Resolvi (emos: eu e a minha mulher) ir viver para o Douro, mais concretamente para Soutelo do Douro, em S. João da Pesqueira (a terra dele... e a da minha mulher). Para quem não sabe, SJP fica no fim do mundo, mas aquele fim do mundo em que vale a pena viver, com qualidade, tempo e oportunidades únicas.
Assim, há cerca de 2/3 anos, voltei a encontrar o sujeito "de poucas falas, bastante cordial". Falámos, pusemos a conversa em dia, decidimos avançar para trabalhos em conjunto. Quase sem me dar conta, já andava a beber uns copos (dos bons, aqui do Douro) com o tal sujeito "importante", amigo da família, homem respeitável na sua terra (e a da minha mulher). Por mim tudo bem.
O tempo não parou, os projectos continuaram, os trabalhos foram sendo feitos, o vinho (aqui do Douro) continuava bom.
Mas dizia eu... ou melhor, escrevia eu, que "Retomo hoje a minha escrita, infelizmente."
A mim sempre me custou escrever, o que quer que fosse. Precisava sempre de algo, ou alguém, a que ou para que escrever.
Hoje escrevo triste, desalentado, quase infeliz. E escrevo com o tal sujeito em mente. Há pessoas que valem bastante, e ele demonstrou ser uma delas. Pelo que fez, pelas oportunidades que criou, pelos projectos que deixou, mas principalmente pelos amigos que cultivou. Valeu a pena.
Sei que este não é um "Até sempre"; para mim é mais um "Até já."
Desculpe a comparação, mas como dizia o outro, espero que continue "por aí".
quarta-feira, 17 de outubro de 2007
25 anos depois...
... da sua morte (precoce), recupero uma frase dita por adriano correia de oliveira:
"a canção pode não ter uma influência decisiva, mas é complementar, e interessa que a arte, seja qual for, reflicta exactamente aquilo que se está a passar em cada sociedade. se não, não é útil e falha substancialmente. não corresponde à sua função."
há um problema, porém: as notícias do meu país estão cada vez piores. o vento já não cala a desgraça.
avintes, coimbra, lisboa e a democracia estão ainda em dívida com adriano. o tempo urge. tem que aparecer alguém que resista. tem que haver alguém que diga não.
"a canção pode não ter uma influência decisiva, mas é complementar, e interessa que a arte, seja qual for, reflicta exactamente aquilo que se está a passar em cada sociedade. se não, não é útil e falha substancialmente. não corresponde à sua função."
há um problema, porém: as notícias do meu país estão cada vez piores. o vento já não cala a desgraça.
avintes, coimbra, lisboa e a democracia estão ainda em dívida com adriano. o tempo urge. tem que aparecer alguém que resista. tem que haver alguém que diga não.
Etiquetas: adriano correia de oliveira, avintes
sábado, 29 de setembro de 2007
o douro enraivecido vem daqui...
hoje, 29-09-2007, vai ser exibido na rtp2 um dos melhores filmes de sempre, e o filme que deu origem ao nome deste blog: "touro enraivecido" ("raging bull", no original). a não perder.
"touro enraivecido" é um dos melhores trabalhos da parceria scorcese/de niro. de niro oferece-nos uma fantástica representação de um homem em que o seu lado animal se esconde debaixo da superfície, prestes a explodir a qualquer momento. realista e insistente na sua violência honesta e sem compromissos.
na banda-sonora do filme, há uma música brasileira, chamada "não tenho lágrimas", cantada por nat king cole.
"quero chorar,
não tenho lágrimas
que me rolem nas faces
pra me socorrer
se eu chorasse,
talvez desabafasse
o que sinto no peito
e não posso dizer
só porque não sei chorar
eu vivo triste a sofrer
(...)"
"touro enraivecido" é um dos melhores trabalhos da parceria scorcese/de niro. de niro oferece-nos uma fantástica representação de um homem em que o seu lado animal se esconde debaixo da superfície, prestes a explodir a qualquer momento. realista e insistente na sua violência honesta e sem compromissos.
na banda-sonora do filme, há uma música brasileira, chamada "não tenho lágrimas", cantada por nat king cole.
"quero chorar,
não tenho lágrimas
que me rolem nas faces
pra me socorrer
se eu chorasse,
talvez desabafasse
o que sinto no peito
e não posso dizer
só porque não sei chorar
eu vivo triste a sofrer
(...)"
Etiquetas: touro enraivecido
os grandes e calmos dias de setembro
eugénio de andrade, um dos maiores poetas portuguesas de sempre, sempre teve uma ligação especial ao douro. na sua casa na foz, no porto, olhava o mar, contemplava o mar. cada onda que rebentava era um verso que escrevia.
estamos no final de setembro. e é de setembro o melhor poema em língua portuguesa.
"pequena elegia de setembro"
"não sei como vieste,
mas deve haver um caminho
para regressar da morte.
estás sentada no jardim,
as mãos no regaço cheias de doçura,
os olhos pousados nas últimas rosas
dos grandes e calmos dias de setembro.
que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
que bosque, ou rio, ou mar?
ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?
queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.
com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?
deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim."
estamos no final de setembro. e é de setembro o melhor poema em língua portuguesa.
"pequena elegia de setembro"
"não sei como vieste,
mas deve haver um caminho
para regressar da morte.
estás sentada no jardim,
as mãos no regaço cheias de doçura,
os olhos pousados nas últimas rosas
dos grandes e calmos dias de setembro.
que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
que bosque, ou rio, ou mar?
ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?
queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.
com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?
deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim."
Etiquetas: eugénio de andrade, setembro
vergonha #01
"qualquer país do primeiro mundo há muito tempo que já teria declarado o vale do sabor não paisagem protegida, não parque natural, mas sim parque nacional! frança 7 tem parques nacionais, espanha 14, portugal apenas 1! o sabor é dos raríssimos locais do país que reúne as condições necessárias para receber a classificação máxima em termos de protecção do ambiente. senão vejamos: a maior população de águia-real (aquila chrysaetos) em território exclusivamente português, uma das maiores densidades de águia-de-bonneli (hieraaetus fasciatus) a nível mundial, populações estáveis de lobo-ibérico (canis lupus signatus), de lontra (lutra lutra) e de gato-montês (felis silvestris). e mais: abrutre-do-egipto (neophron percnopterus), cegonha-negra (ciconia nigra), grifo (gyps fulvus) ou bufo-real (bubo bubo) todos apresentam neste vale importantes efectivos populacionais. a lista continuaria indefinidamente: os mais extensos e bem conservados azinhais e sobreirais de trás-os-montes, um elevado número de endemismos, etc., etc.que vão então os portugueses fazer a um dos seus últimos paraísos? destrui-lo irremediavelmente!"
retirado do blog fauna ibérica
retirado do blog fauna ibérica
Etiquetas: fauna ibérica, sabor
